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Três antes dos Trinta

01
Abr19

Roupa com história

Ana Sousa Amorim

É giro como a roupa tem história e como, claro, até dessas eu tenho umas malucas. Não vestia esta camisa há muito tempo, primeiro porque não me servia e depois porque costumava ficar da cor da dita só de me lembrar o que passei nela. Dois meses depois de o Gonçalo nascer eu — na altura ainda era advogada — tive um julgamento ao qual não pude faltar. Ele mamava, em exclusivo, e eu já tentara tirar leite, mas sem sucesso. Deixei-o com a minha irmã, não iria estar fora mais que 4 horas e dei-lhe de mamar mesmo antes de sair para que ele não tivesse fome na minha ausência. Ficou uma lata de leite para abrir caso ele largasse a chorar. E fui. Após as esperas e formalidades habituais, lá entrámos na sala de audiências e eu gelei: tinha-me esquecido da toga. Como é que eu me esqueci da puta da toga? E pior, como é que durante todo o tempo de espera antes de entrar em que passaram por mim vários advogados de toga eu não me lembrei? Que raio de cabeça era aquela que eu tinha? Pedi a palavra, expliquei o que se passara e a juíza pediu-me que não me preocupasse. Eu não tinha muita experiências em julgamentos, nunca tinha gostado dessa parte, e sabia que o que se tinha passado não tinha importância, mas isso não me impediu de ficar nervosa e irritada por não entender como tinha sido possível, dando demasiado valor a uma coisa sem importância. Prosseguimos, estávamos a ouvir as testemunhas, eu sempre remoer no porra-a-sério-que-me-esqueci-da-toga quando olho para os meus apontamentos e bato com os olhos nas duas ENORMES manchas de leite que tinha nesta linda camisa. Se até aí estava nervosa, naquele momento qualquer réstia de confiança que tinha abandonou o meu corpo. Depois lembrei-me: ele deve estar com fome. E tive saudades do meu filho que não via há no máximo duas horas e senti-me culpada por o ter deixado tão pequeno. Apeteceu-me chorar. Mas estava no meio de um julgamento com duas auréolas à volta das mamas de uma camisa vermelha quando devia estar de toga preta. Apeteceu-me rir. Disse todas as asneiras do mundo mentalmente, puxei o cabelo para a frente (que nada adiantou, porque usava-o curto na altura) e cruzei os braços ao nível do peito. Inquiri duas testemunhas de braços cruzados em suspensão no ar. Conseguem imaginar o ar de maluca? Até podem achar que dá ar de confiante, mas quando a pose braços cruzados é acompanhada de toda uma restante atitude de pessoa frágil o conjunto resulta só numa chanfrandice terrível. A seguir levantei-me e coloquei a minha pasta nos braços à frente do corpo e foi assim, a abraçar a pasta como se a minha vida dependesse disso, quase a fundir-me com a dita, que me despedi das magistradas, da funcionária, das testemunhas, foi assim que cumprimentei uma pessoa conhecida que encontrei à saída e foi assim que fugi para o carro. Quando cheguei a casa o miúdo já havia bebido um biberão de leite adaptado porque tinha tido fome. E eu senti-me mal porque na altura a amamentação em exlusivo tinha muita importância para mim, estava fixada de forma parva naquilo. Depois olhei bem para a minha figura e lembrei-me que tinha acabado de ser eleita por mim própria a miss t-shirt molhada da justiça e passou-me.

[não se ralem, não prejudiquei ninguém com os meus nervos puerpérios-profissionais, o processo era uma coisa simples e teve um desfecho normal]

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