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Três antes dos Trinta

10
Jan20

Convulsão febril

Ana Sousa Amorim

Convulsão febril. Já ouviram falar? Penso que a definição científica da coisa é f-o-d-a-s-e. Há dias saí de casa para ir às compras e deixei os miúdos com o pai e quando voltei ele tinha umas olheiras tão fundas que parecia ter envelhecido dez anos e a voz sumida. Eu estava no fórum na fila para pagar numa loja — que coisa tão idiotamente corriqueira de se estar a fazer quando se fica sem chão — e recebo uma chamada que me lembro de incluir «vem imediatamente» «mas ele está bem?» «vem, por favor». Não sabia que era possível correr a chorar. Uns infindáveis 20 minutos e muitos semáforos vermelhos depois, cheguei a casa e vi o que nunca se quer ver: as luzes do inem à nossa porta. O meu filho mais velho teve uma convulsão febril. Num momento estava ótimo, no seguinte inerte nos braços do pai, a espumar e roxo, sem respirar. É uma reação benigna e não deixa sequelas, mas aparece mascarada da personificação do pior medo dos pais. Está tudo bem, ele está ótimo, foi só um susto e uma noite no hospital e agora já levamos a tabuada estudada: acontece a uma % diminuta de crianças até aos 6 anos, é uma reação do cérebro ainda imaturo à subida abrupta da temp, 1/3 das crianças que faz pode repetir noutro episódio de febre e por isso há que estar preparado (sem criar pânico à febre). Ficou o receio de que se repita, a memória qual cicatriz de uma cirurgia, e também ficaram algumas certezas: não há nada como o medo de perder um filho [nada]; escolhi o homem ideal para ser pai dos meus filhos [mais uma vez, o meu herói]; a minha amiga C. é o mais próximo de anjo que conheci [foram tantas as coisas que fez por mim só neste dia, uma pessoa que tira tempo antes de dormir depois de ter feito urgência (a de trabalho mesmo e a em minha casa) para me mandar artigos sobre a matéria é mesmo especial]; os meus vizinhos são boas pessoas e estenderam-nos a mão quando mais precisávamos como quem cuida dos seus, vivo em Coimbra porque vivermos a metros da família que nunca nos falha faz a diferença e estranho mundo este em que um hambúrguer do Mac via Ubereats me chega mais rápido que o INEM.

Rico filho, para com estes sustos, eu quero chegar aos 80 anos e assim fica difícil.

Deixo as ligações que me foram enviadas pela pediatra sobre a matéria. São fidedignas, podem confiar. As recomendações que recebemos no hospital vão ao encontro destas (e foi receitado o medicamento referido para aplicação aquando de uma convulsão). É importante lembrar que cada caso é um caso e a opinião/avaliação médica é crucial. Eu não sou médica, não tenho QUALQUER formação na área da saúde, estou só a repassar informação que me deram e em que confio.

Fiz um papel com o resumo destas recomendações e com a nossa morada por extenso (e explicação) e coloquei num quadro à porta de casa. Parece exagero, mas a infelizmente já não é a primeira vez que precisamos de ligar para o INEM e na hora nem quem sabe bem a morada consegue dizê-la. Assim só temos de ler, além de que os miúdos podem estar com outra pessoa que não nós.

Outra coisa que fiz, por recomendação médica, foi criar o «kit convulsão» e espalhá-lo pelos sítios onde ele anda (escola, casa dos avós e mochila). Coloquei o medicamento a aplicar aquando da convulsão, um supositório Benuron e as referidas recomendações num pequeno envelope almofado.

Comprei termómetros novos e tenho dois de reserva porque o que tinha nem tinha pilhas (para verem como a febre era um não assunto cá em casa).

É o máximo de preparação que uma pessoa pode ter para uma coisa perfeitamente inesperada. É o que me acalma, não me acalmando nada.

Acho que todas as pessoas que passaram por isto percebem o nível de susto. A todos os que não passaram, espero que não o conheçam!

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