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Três antes dos Trinta

01
Abr19

Roupa com história

Ana Sousa Amorim

É giro como a roupa tem história e como, claro, até dessas eu tenho umas malucas. Não vestia esta camisa há muito tempo, primeiro porque não me servia e depois porque costumava ficar da cor da dita só de me lembrar o que passei nela. Dois meses depois de o Gonçalo nascer eu — na altura ainda era advogada — tive um julgamento ao qual não pude faltar. Ele mamava, em exclusivo, e eu já tentara tirar leite, mas sem sucesso. Deixei-o com a minha irmã, não iria estar fora mais que 4 horas e dei-lhe de mamar mesmo antes de sair para que ele não tivesse fome na minha ausência. Ficou uma lata de leite para abrir caso ele largasse a chorar. E fui. Após as esperas e formalidades habituais, lá entrámos na sala de audiências e eu gelei: tinha-me esquecido da toga. Como é que eu me esqueci da puta da toga? E pior, como é que durante todo o tempo de espera antes de entrar em que passaram por mim vários advogados de toga eu não me lembrei? Que raio de cabeça era aquela que eu tinha? Pedi a palavra, expliquei o que se passara e a juíza pediu-me que não me preocupasse. Eu não tinha muita experiências em julgamentos, nunca tinha gostado dessa parte, e sabia que o que se tinha passado não tinha importância, mas isso não me impediu de ficar nervosa e irritada por não entender como tinha sido possível, dando demasiado valor a uma coisa sem importância. Prosseguimos, estávamos a ouvir as testemunhas, eu sempre remoer no porra-a-sério-que-me-esqueci-da-toga quando olho para os meus apontamentos e bato com os olhos nas duas ENORMES manchas de leite que tinha nesta linda camisa. Se até aí estava nervosa, naquele momento qualquer réstia de confiança que tinha abandonou o meu corpo. Depois lembrei-me: ele deve estar com fome. E tive saudades do meu filho que não via há no máximo duas horas e senti-me culpada por o ter deixado tão pequeno. Apeteceu-me chorar. Mas estava no meio de um julgamento com duas auréolas à volta das mamas de uma camisa vermelha quando devia estar de toga preta. Apeteceu-me rir. Disse todas as asneiras do mundo mentalmente, puxei o cabelo para a frente (que nada adiantou, porque usava-o curto na altura) e cruzei os braços ao nível do peito. Inquiri duas testemunhas de braços cruzados em suspensão no ar. Conseguem imaginar o ar de maluca? Até podem achar que dá ar de confiante, mas quando a pose braços cruzados é acompanhada de toda uma restante atitude de pessoa frágil o conjunto resulta só numa chanfrandice terrível. A seguir levantei-me e coloquei a minha pasta nos braços à frente do corpo e foi assim, a abraçar a pasta como se a minha vida dependesse disso, quase a fundir-me com a dita, que me despedi das magistradas, da funcionária, das testemunhas, foi assim que cumprimentei uma pessoa conhecida que encontrei à saída e foi assim que fugi para o carro. Quando cheguei a casa o miúdo já havia bebido um biberão de leite adaptado porque tinha tido fome. E eu senti-me mal porque na altura a amamentação em exlusivo tinha muita importância para mim, estava fixada de forma parva naquilo. Depois olhei bem para a minha figura e lembrei-me que tinha acabado de ser eleita por mim própria a miss t-shirt molhada da justiça e passou-me.

[não se ralem, não prejudiquei ninguém com os meus nervos puerpérios-profissionais, o processo era uma coisa simples e teve um desfecho normal]

24
Mar19

Isto de ter filhos que chegam antes do tempo

Ana Sousa Amorim

O episódio de ontem de This is Us — que francamente já anda muito chachada — vale pela maneira brilhante como falam da prematuridade. Há uns meses, uma pessoa que não conheço, em conversa de circunstância, perguntou se os gémeos eram prematuros (porque muitos são). Respondi-lhe que sim e que estiveram 15 dias na UCIN. Respondeu-me que isso não era nada, a Pipoca Mais Doce tinha tido a filha um mês. Eu sempre soube que não era nada, mas também nunca entendi escalas de sofrimento e acho mesmo que só quem não teve os filhos nos cuidados intensivos é que é capaz de dizer algo desta forma da boca para fora. Os meus filhos nasceram a dias de serem bebés pré-termo, uma fase da prematuridade já muito boa. Nasceram com um bom peso para gémeos e prematuros. Estiveram dias na incubadora e uns meros quinze dias na UCIN. 15 dias passam a voar no Caribe, por exemplo. Ao décimo uma pessoa fica farta da comida do resort, mas fica triste quando chega a hora de voltar e o bronze desaparece em dias. Aqueles 15 dias foram uma vida. Sei de cor o caminho para lá, podiam vendar-me à entrada da maternidade e eu chegava sem chocar em parede alguma até à porta que diz UCIN. O cheiro a desinfetante que colocava nas mãos antes de entrar lembra-me o momento em que conheci os meus filhos. Lembro-me de todos os pormenores da sala onde estavam e se soubesse desenhar sabia fazer o retrato perfeito da mãe do nosso vizinho de sala embora nunca mais a tenha visto. Acho que há uma proteção qualquer associada à maternidade que me envolveu de uma certa inconsciência e me fez crer sempre que tudo ia correr bem. Eu tinha uma gravidez de risco e mesmo tendo tomado certas precauções, nunca esperei nada de mal. Mesmo na manhã em que me romperam as águas e percebi que talvez a coisa estivesse mesmo a acontecer, quando me disseram que estavam a tentar atrasar o parto e talvez conseguissem pelo menos que eles fizessem 35 semanas eu pedi o computador, o livro e preparei-me para ficar uma semana internada à espera. Fiquei 8 horas. Só quando os tiraram de dentro de mim e eu perguntei se os podia ver e me explicaram como se eu tivesse três anos que eles eram prematuros e iam para os cuidados intensivos é que eu percebi. Eles eram meus, mas não estavam comigo. Eu sei que eles estavam onde estavam melhor. Eu sei que era do que eles precisavam. Mas eu fui mãe e não tinha filhos. Eu fui levada para uma enfermaria e o meu marido chegou-me de lágrimas nos olhos a dizer que eles eram minúsculos. Eu pedi fotos e estranhei quando ele me disse que não conseguiu. Não conseguiu, como? No dia seguinte, mais de 24 horas depois, percebi. Eles eram horríveis. Eu vi os outros bebés de 800gr cheios de fios e arrepiei-me. Eu vi-os. Mas a primeira vez que olhei mesmo para um bebé prematuro foi quando olhei para os meus. Não tinham pestanas. Não tinham sobrancelhas. Tinham fios. Não choravam. Nesse dia fazia qualquer coisa como um ano, três meses e uns dias que eu tinha tido um filho que veio parar ao meu colo com minutos. Que mamou. Que chorou. Que abriu os olhos e levantou a cabecinha quando lhe trocava uma fralda na maternidade para espanto das enfermeiras que disseram «ai que tu estás cheio de pressa de crescer». Os meus filhos estavam separados de mim por um vidro e tinham um tubo enfiado pelo nariz porque se dependesse deles não comiam. Isto agora é bastante simples de lembrar, mas na altura era chocante. Era chocante não ter vontade de lhes pegar, afinal, eles eram meus. Mas a primeira vez que lhes peguei nos cuidados intensivos tive tanto medo de os partir, de lhes puxar um fio, de eles deixarem de respirar e eu nem sentir que não me lembro de aproveitar, só de me doer imenso a cicatriz da cesariana porque eu estava tensa. Ao terceiro dia tive alta. Foi fácil combater o sentimento de «devia ficar aqui na maternidade para estar próximo deles» porque tinha outro bebé em casa à minha espera que não via há 4 dias porque ele estava doente e achámos por bem não o levar à maternidade. O Pedro foi buscar-me e fomos diretos para casa da minha sogra onde ele estava. Há três dias tinha sido operada e tinha uma sutura que parecia uma faca espetada no baixo abdómen, mas saí do carro toda ligeira e subi mesmo não sendo preciso. Voei para ele e nunca hei de esquecer o que seguiu. Entrei no escritório e ele estava sentado ao colo da minha sogra. Eu disse «olá, meu amor» e ele olhou para mim, naquilo que me soube a desilusão, e olhou para o lado. Não quis vir ao meu colo (que ofereci, embora o Pedro me pedisse para ter cuidado e o meu corpo também). Não me sorriu. Estava chateado de eu o ter deixado aqueles três dias (ou os últimos meses). O meu coração partiu-se. Não tinha casa: não tinha nenhum dos meus filhos nos braços e falhava a todos. Àquele que não tinha como explicar o que se passava. Aos outros porque estava ali, longe deles, porque não extraía leite, porque estava a encomendar comida para almoçar como se nada se tivesse passado. Naquele momento nasceu a mãe de três que sou, a malabarista que serei, o resto da vida, sempre dividida, sempre a ponderar concessões. Senti-me como quando comecei a trabalhar e perante a minha primeira tarefa mais difícil no escritório pensei «eles acham que eu sei de direitos reais e eu fiz aquilo em erasmus». Não sabia minimamente como me safar. Eu sou de ação, queixo-me que me canso, mas estou sempre a pensar na solução. E aquilo estava a custar-me horrores, mas foquei-me no final. E como há uns anos, estudei. Li sobre como aumentar a extração de leite. Pus o despertador para as 2h e 5h da manhã para extrair leite. Voltei a trocar a fralda ao Gonçalo mesmo quando ele chamava pelo pai. E li sobre esta coisa de não sentir os meus filhos bebés, mas antes ratinhos. Não chorei um único dia daqueles dias em que todas as manhãs e todas as tardes fui para os cuidados intensivos. Mas ontem, quando via a reação do Toby na série pensei «este era eu». Podem ter sido só 15 dias, mas doeram. Custa-me ainda hoje pensar que quando vi os meus filhos não lhes quis pegar (mas peguei). Passa. E não sei se é ou não normal, mas é a nossa história. Hoje olho para eles e acho que nem consigo ver os bebés que eram. Mesmo depois de virem para casa eram tão pequenos e sem movimento que assustava porque parecia que não queriam reagir. Agora olho para as fotos e já não assusta. Olho para eles e só me lembro do aperto que foi pensar que podia correr tudo mal. Mas não correu, está tudo bem e são feridas que deixam marca, mas que saram. Afinal, foram só 15 dias, não foi nada.

18
Jan19

This is me

Ana Sousa Amorim

Há dias perguntavam-me como é que eu tinha tempo para ver séries. No fundo, não tenho. Ontem, às 9h30 adormeci o último bebé acordado e estava livre. Trabalhei quase uma hora, às 22h20 estava toda lampeira no sofá pronta ver o regresso de This is Us quando descubro que os cabrões da Fox Life trocaram o prime time para as 23h10. Ora, era óbvio que devia pegar neste corpinho admoestado por semanas de privação de sono e atirar com ele na cama, mas liguei de novo o computador, continuei a trabalhar com a desculpa que compensava de manhã e dormia um pouco mais como se eu tivesse licença dos meus filhos para dormir até tarde. A Leonor, depois de ter feito uma noite de pausa no seu mestrado em «aterrorizar as noites dos meus pais», pediu desculpa por vacilar e dormir uma noite de doze horas. «Não se preocupem, não volta a acontecer». Quando terminei a série, corri para a cama, deitei-me e estava no parlapié com o Pedro a dizer que sim senhora, adoro a série, sim senhora há coisas que já não são o mesmo, mas sim senhora aquilo é tv de qualidade, quando a Leonor diz «queres ver o que é tv de qualidade, mãe?» Esgar. Chucha. Esgar. Chucha. Choro. Chucha. Trago-a? Leite? Gritos. Gritos. Ok, porra, trá-la antes que ela acorde os irmãos. Grande merda, devia ter vindo para a cama quando pude. A série não é assim tão boa. Disse para o Pedro: «Olha vai para o sofá da sala, isto vai ser difícil e tu precisas de descansar». Muito embalo, passeio e transferências para a cama sem sucesso depois, ponderei se não estaria com a fralda suja e eis que descobri que estava cheia de chichi no body (não perceptível debaixo das calças e collants). Ai filha, desculpa, a mãe troca-te já a roupa. O Pedro volta da sala porque a bem dizer também não se consegue adormecer quando existe alguém a gritar como no Psycho e trocamos a fralda debaixo de várias ordens de desespero um para o outro. Terminamos a operação e agora ela está tão possuída pelo demo que urge dar-lhe um biberão para acalmar a franga. A menina malha os seus 210 ml de leite por entre tosses e ranhos e no fim aceita finalmente ficar na cama ao lado da nossa sem chorar, a ver TV. Pedro vai para a sala, eu tento dormir com a luz da TV, ela que adormeça quando lhe apetecer. Antes de adormecer só penso «não sei como é que os irmãos não acordaram com o chavacal que ela montou». AI CARALHO, PORQUE É QUE PENSAS ESSAS COISAS, ANA, PORQUÊ? Aproximadamente dois segundos depois recebi uma SMS do Duarte a dizer «lol, mãe, lol» e por SMS quero obviamente dizer através de gritos histéricos de quem não come há três horas, mas sente que passaram 20. E depois de lhe dar o biberão que constatámos, adivinhem lá? Que o puto também estava molhado! Ora, mais uma troca/tortura básica capaz de acordar a terra, lá adormeceu. Não trocámos nem uma palavra, ele voltou para o sofá, nem ousei sequer pensar no mais velho e no estado semi-comatoso em que é preciso uma pessoa estar para não acordar com aquele nível de putedo, porque já acredito em tudo e acho que os meus filhos me lêem os pensamentos. Deitei-me eram quase duas da manhã e desmaiei. Pouco depois, meio a dormir desliguei a TV pois a miúda já tinha adormecido também. Passei a noite a acordar para lhe pôr a chucha. Conclusão: this is me, até vejo séries, mas claramente não devia.

30
Dez18

2018

Ana Sousa Amorim

Adoro balanços de fim de ano. Sou uma pessoa que funciona por objectivos por isto aproveito esta altura — e a dos meus anos — para alinhar as coisas. Ou era. Porque nos últimos anos o lema foi «going rogue». Sou organizada e pessoa de regras, mas a melhor que instituí foi se as listas ficarem por fazer, que fiquem, se a organização se furar, que fure e se o caos quiser entrar, abrir-lhe-ei as portas. Não vos vou dizer que foi o ano que quis. Teve muitas coisas boas. Superámos imensa coisa. Ajudaram-me muito para poder descansar uns quantos dias e passear outros. Tenho fotos lindas. Mas não se fotografa a saudade. Não saí do país. Não dormi. Não fui a um único concerto, nem a uma peça de teatro. Fui só quatro vezes ao cinema. Faltei a ajuntamentos vários de amigos. Tenho três livros há meses na mesinha de cabeceira que quero mesmo ler e nem os abri. Continuo com a dissertação por entregar. Ainda não fiz a minha Master Class do Aron Sorkin. Chorei rios de água. Desesperei. Tive vontade de atirar os meus filhos à parede porque nalgumas noites de cansaço vi tudo vermelho. Mas joguei ao esconde-esconde com a loucura e continuo a ganhar, sei onde ela está e deixo-a lá. Agarrei-me ao sol que nasce sempre, mesmo nos dias mais feios. Saí para dançar duas noites apenas, eu que adoro tirar o pó dos ossos. Passei 6 noites fora com o meu marido sem filhos, precisava de 20. Discuti muito com ele, mais do que em toda a nossa vida e às vezes por coisas que não valiam dois segundos. Não mandei aquela pessoa que me disse que eu precisava de emagrecer «pelo Pedro também» à merda e às vezes lembro-me. Assim como não mandei a pessoa que no shopping me disse para não tirar fotos à Leonor de capacete e tapar o arnês com roupa. Já sei que me vão mandar não pensar nestas pessoas, mas quando uma pessoa está frágil, esconder as lágrimas por comentários estúpidos custa. Por isso em 2019 vou mandar mais pessoas à merda e chorar menos, prometo. Prometo também tentar não trabalhar aos fins-de-semana e namorar mais. Não quero mais filhos, mas quero mais destes.

28
Dez18

Sabes lá, porra, sabes lá

Ana Sousa Amorim

Já me disseram uma vez quando me queixava da logística que sabiam como era e eu não disse, mas pensei para mim «sabes lá, porra, sabes lá». É, eu já tive só um filho, e as coisas mudam, mas fiz uma viagem de carro 13h com ele, outra de avião, viajámos sem ele, saíamos de casa quase todos os dias e jantava fora frequentemente com ele e sem ele. Com dois bebés quando tenho um almoço de família preciso de dois minutos no espelho da casa de banho a dar-me uma pequena pep-talk com muitos «tu consegues, Ana, é só sair de casa, não é andar de avião, são 4 km, não é esta merda que te vai deitar abaixo e ter o esgotamento". A logística de ter gémeos é um inferno que devia dar para colocar no CV como demonstração de grande capacidade de conformação, logística, mediação de conflitos, e por aí fora. Já nem falo do dinheiro (lágrimas), mas da logística, o não poder pegar num ao colo e correr para dentro do restaurante sozinha, porque há outro à espera no carro  é daquelas coisas que só mesmo quem passa é que sabe. Eu nunca sonhei com este mundo, aliás, nunca levei a sério as vezes infinitas que o meu pai dizia que eu ou a minha irmã íamos ter gémeos atendendo à genética que possuíamos, e quando pensava nisso só pensava «ui, não é para mim». E de facto, não é. Porque a verdade é que em vez de fazer face às adversidades, suar e dizer asneiras, eu eliminei-as. É difícil viajar? Não viajamos. É difícil jantar fora? Nunca o faremos. É difícil almoçar todos os fins-de-semana com amigos? Passará a ser de quatro em quatro meses. Foi o caminho que encontrámos para manter a sanidade e não aceito que ninguém o critique porque os sapatos podem ser bonitos, mas quem anda com eles sou eu. Sabes lá, porra, sabes lá.

09
Dez18

Sobre a festa do primeiro aniversário dos gémeos

Ana Sousa Amorim

Então sobre ontem: decidimos fazer uma festa de aniversário aos putos daquelas mais para adultos do que para crianças, embora parte do nosso grupo de amigos já se tenha reproduzido por muitos. Assumo sem pudor que o único motivo pelo qual avançámos com a festa foi pela conhecida síndrome «segundo filho» que nos leva a fazer as mesmas coisas que fizemos ao primeiro ainda que não haja vontadinha nenhuma. Decidi marcar cabeleireiro para contrariar a falta de cuidado dos últimos tempos. Já estava de pratas no cabelo quando me avisaram que a coisa ia demorar 4h. Portanto, ia sair dali à hora a que a festa começava. Não sabia se devia chorar ou rir. Enchi-me de coragem e mandei sms ao marido que pensou que estava a gozar. Ao menos levei o computador para trabalhar e não se perdeu tudo. 4h depois, bastante mais pobre e com um cabelo que não gosto porque quem nasceu para lagartixa não chega a jacaré e nos outros balayages é chique, em mim ficou só parecido com madeixas dos anos 90 mas em mau, saí do cabeleireiro, corri para casa, e arranjei-me em exactamente em 10 min e 19s. Não cronometrei ao segundo, mas pus o Sinnerman da Nina Simone a tocar e vesti o casaco no preciso momento em que a música terminou. No Thomas Crown Affair é o tempo que leva a assaltar um museu, na minha vida foi o tempo que consegui roubar para me vestir e pintar, sempre sempre a safar. Depois de entrar no carro e de me enganar duas vezes num caminho que conheço desde os 15 anos, constatei que se calhar não posso passar tanto tempo sem andar de carro porque fico com a capacidade de andar na cidade de um turista. A viagem demorou dez minutos, aí ao oitavo o meu corpo disse-me «Ana, aparentemente sobreviveste 30 anos sem saber que para fazer coisas, nomeadamente conduzir, é necessário respirares, pelo que enfiares-te numa cinta que parece querer que os teus órgãos se unam para sempre é parvo». Tive de estacionar longe, porque os lugares perto estavam ocupados pelos convidados da minha festa, como é óbvio e irónico, e tentei correr para a porta. Aqui pensei: foda-se, eu tenho de ser estudada. Acho que sou um exemplo perfeito dos efeitos da privação de sono. A sério, eu era uma pessoa com uma boa capacidade de tomar decisões, acho mesmo que a perspicácia era uma das minhas melhores qualidades. Agora, só tomo decisões de merda. Tenho três filhos que não param quietos e decidi vestir uma saia lápis. Muito justa, o que não abona a favor da minha elegância, e com elasticidade que permite um diâmetro de ação tão reduzido que andar fica difícil, correr uma utopia. Juntei-lhe saltos altos. Objecto de estudo, definitivamente. Assim que pus o pé na festa pensei que o meu corpo ia entrar em paragem cardiorrespiratória, mas a primeira pessoa que me viu disse «estás tão linda» e a seguir o meu filho mais novo chorou quando olhou para mim, o que decidi entender como um elogio. Do depois nada mais há a dizer porque a tristeza torna-me poeta, o caos com a mania que sou engraçada e a felicidade muda.

29
Nov18

Luto

Ana Sousa Amorim

Antes de o saber só na teoria e não na prática, achava que da definição de luto constava «fase». E as fases entendem-se passageiras. Mais ou menos demoradas, mas que passam. Agora que se instalou, por mais que lute, sei a verdade: não é fase, é para sempre, fica como não fica a vida, que se vai. O início é doloroso em permanência: o choque e a faca afiada espetada com pontaria no nosso ponto mais nevrálgico não deixam paz. O durante, longo como é tudo o que não tem fim, é apaziguador e simulado. Faz as vezes de normalidade, mascara-se de dia a dia e quando acorda escarafuncha para doer muito em pouco tempo.

09
Out18

Maria Bitaites Internautas

Ana Sousa Amorim

Depois de ter feito o post das Marias Bitaites - Edição Gémeos, muitos me pediram para fazer a versão reunião de pais e grupos de mães no Facebook. Pronto, foram só duas pessoas, mas foram duas pessoas de quem eu gosto muito, por isso valem por muitas, certo? Ora, de reuniões de pais não percebo. Não estou especialmente entusiasmada com essa fase da vida, acho que vou ter muito material, mas a verdade é que para já vivo na ignorância.Já relativamente a grupos de mães no Facebook………… Eu boto o olho em tudo e raramente comento algo, a maioria das vezes simplesmente remeto-me ao silêncio gozador. Mas que já vi cenários de horror, já. E por isso aceitei o repto.Aqui estão então as Maria Bitaites Internautas:

| A incendiária«Mamãs, eu sei que nem tem a ver com o tema do grupo, mas deixem-me lá dizer que não percebo esta nova obsessão com a alimentação e a proibição do açúcar. É que com os meus dou tudo com peso e medida e vejo gente de forma gratuita a insultar pessoas só porque uma vez por outra dão um doce aos filhos. Não estou a tentar criar uma guerra, a sério. Eu só queria deixar a minha opinião sobre isto. Não vejo mesmo qual é problema, acho que é um pouco desequilibrado.»Eu quando não quero guerras também vou a um grupo com 7000 desconhecidas mães meter a mão num tema perfeitamente polarizador e insultar um dos lados! Precisas de um pouco de putedo na tua manhã e ficaste sem box na TV por isso não dá para pôr no Quintino Aires, não é?

| A juiz com o martelo«Mães, tenho visto recentemente muitas guerrinhas sobre alguns temas. Devo recordar que consta das regras do grupo que devemos respeitar-nos umas às outras. Vamos lembrar-nos por favor que estamos aqui para sabermos como melhor alimentar/adormecer/transportar os nossos tesouros.»Oh, honey…. Ninguém está aqui só para isso.

| A bully que gosta de dizer que quer ajudar«Pois, mas há muitas mães a quem aconteceu isso e mesmo assim depois conseguiram, eu incluída. Nunca pensei em desistir porque sabia que era o melhor para o meu filho e deve só ser isso que nos motiva. Acho que não deve desistir, uma boa mãe tenta tudo pelo filho.»Pronto, agora só tens de fazer cara de emoji surpreendido quando descobrires que o teu filho anda a amassar putos no colégio para lhe darem dinheiro.

| A que se esquece que a pessoa que publicou o post consegue ler os comentáriosMãe pergunta como se faz uma papa Nestum. Primeiro comentário: «a sério que não percebo como é que estas mães ainda dão Nestum aos miúdos».I'm right here, bitch. Right here.

| A beligerante disfarçada de Gandhi«Mamãs, estes grupos agora servem só para criar guerras. Ninguém ajuda, ninguém quer trocar dicas, só atacarem-se umas às outras. Tenho saudades dos tempos anteriores. E pronto, era só isto, podem começar a mandar pedras em 1,2,3 …»Então, mas se não queres guerras…. Porque não ficar calada? Ah já sei, ensinaram esta técnica nos bombistas anónimos? Manda a bomba, mas a dizer que não concordas com bombas para caírem que nem patas? Boa!

| A que não partilha a cara dos filhos no perfil, mas partilha num grupo com 3000 desconhecidos porque «Segurança»«Olhem o meu bebé lindo. 6 semanas hoje.»Conheces a Maria Antónia de Baixa da Banheira? Não? Então porque é que partilhaste a foto do teu filho com ela e não com os teus 123 amigos?

| A que abre o livro todo«O meu marido não quer ter sexo comigo. Diz que depois do parto nunca mais conseguiu olhar para minha coisinha da mesmo forma.»Baaaaaaaby, esta não é a mulher do Zé António?

| A que está na fase dos porquês«Amanhã não há aulas porque é feriado, o meu filho perguntou-me que feriado é e eu não sei, alguém sabe dizer?»Google, sua totó. Google.

| A que tem a televisão estragada«Amamentar: sim ou não?»BUUUUUUUUUUUUM. WW3

| A professora«Já viram este post desta blogger conhecida? Ela está a usar um pano não homologado pelas mães dos panos, acham normal? Mas ninguém lhes dá informação? Fui lá explicar como é que se faz, para ensinar.»Ó setôra!!!!!!!!!!!!!

| A que gosta de passar a mão pelo pêlo ou não«Mamãs que tudo sabem, …»Isto é suposto ser um elogio («ah e tal tenho visto e vocês sabem tudo») ou boca foleira («hey, ó manientas que têm a mania que sabem tudo»)? Nunca cheguei a perceber. [beijo, Mafalda, obrigada por esta]

| A que acha que está a ligar para o 112«Mamãs ajudem-me, por favor, o meu filho está a cuspir sangue, faço o quê?»VAI PARA AS URGÊNCIAS, CARALHO!

| A tilófóbica«Mamas o meu filho não mama há 3 dias como acham que estão as minha mamas mamas?Apresento-te o til (~). Não o temas, ele é amigo. Mamãs - nome carinhoso para mãe. Mamas - seios. Vês como esta onda querida ajuda tanto? Faz o bem, usa o til. Quando passares na aula «Til», ensino-te a colocar vírgulas.

04
Out18

No is no

Ana Sousa Amorim

Aqui há uns anos, quando o Obama foi eleito Presidente dos Estados Unidos li uns artigos sobre racismo na América e lembro-me de pensar «não, nós não somos assim racistas». Em conversa com alguém muito tempo depois apercebi-me da dura realidade: somos igualmente racistas, simplesmente nos EUA fala-se disso, aqui não. Quando o Trump foi eleito apesar de existirem gravações dele a dizer que apalpava as mulheres pela rata (entre outros episódios), eu pensei «nós, não somos assim misóginos, machistas». Estão a ver onde é que vai dar, não estão? Nós últimos dias, a propósito da questão da acusação de violação do Ronaldo, ver a propagação de comentários «é, achava que ia beber chá para o quarto», «ó Ronaldo, usavas vaselina para não fazer dói-dói», «acabou-se o dinheiro e agora quer mais», muitas vezes de mulheres e muitas vezes acompanhados de demonstrações claras de nem terem procurado saber os contornos do caso, é desanimador e faz-me concluir que sim, somos. Aquando de decisões como as do acórdão da «sedução mútua» nunca falta quem os censure munido de argumentos como «eu tenho uma filha e não é este mundo que quero para ela» como se fosse preciso ser-se mulher, ter filha, mãe ou namorada para se ser feminista e como se o futuro que deixamos aos filhos fosse o único móbil para defender um mundo melhor para hoje. Hoje uso eu esse argumento: é isto que querem ensinar às nossas filhas? Se subires ao quarto, é porque tens de dormir com ele, quer queiras quer não! Se usares decotes, já sabes que os homens se podem usar do teu corpo. Se gostares de sexo, tens de gostar de tudo. Se disseres que sim, não podes mudar de ideias, não vale de nada dizer não. É assim? E é isto que queremos ensinar aos nossos filhos? Se ela aceitar ir contigo para o quarto, podes servir-te do corpo dela como quiseres. Se ela aceitar ir jantar, já sabes que está no papo e podes ser violento para o concretizar. Se ela disser sim a um beijo, considera-a disponível para tudo. Se ela estiver de decote, é porque quer que a comas. É assim?Não sou daquelas pessoas que defende que o mundo está cada vez pior. Continuo a defender que o mundo em que os meus filhos nasceram é incomensuravelmente melhor do que aquele em que eu nasci: o desenvolvimento, o progresso da tecnologia ao serviço da nossa saúde, locomoção, felicidade, a quebra de barreiras importantes, a conquista de liberdades e a defesa dos direitos civis nos países desenvolvidos melhoraram o mundo nestes últimos 30 anos. No entanto, ao ver estas reacções lembro-me que ainda falta muito.

17
Set18

Tem calma

Ana Sousa Amorim

Basicamente uma pessoa anda aí e pensa que há mães como há mulheres, todas diferentes, mas vai-se a ver e afinal só há dois tipos: mãe-galinha e a mãe-relaxada. E ou se é uma ou se é outra. A mãe-galinha é demais: é tudo em bom, mas demais. Ama tanto que sufoca, preocupa-se tanto que exagera, cuida tanto que não dá espaço. A mãe relaxada deixa tudo andar, não se preocupa, vive a vida. E, como em tudo nesta merda da maternidade, ou se é uma ou outra.Volta e meia, alguém me diz a propósito de alguma coisa com os meus filhos que tenho de ser mais relaxada, mais descontraída que não ando a aproveitar. Quando alguém me diz que eu «tenho de ser» de determinada maneira fico logo com comichão, apetece-me mandar essa pessoa à merda, mas aguento-me porque sei viver em sociedade. Eu devo ser relaxada? Mas quem é que disse que eu não sou relaxada? E… quem é que disse que eu quero ser relaxada? E o que é ser relaxada? E quando é que devo ser relaxada? E como… vocês percebem. Depois a sentença: «Estás em stress com tudo, tens de deixar a vida levar, o teu stress passa para eles, sabes, por isso é que eles não dormem/comem/cagam/falam". Ora, fica o disclaimer: eu não sou relaxada, não sei ser e não quero ser. Nunca fui. Não sei ser assim com os miúdos porque não sei ser assim com ninguém. O meu pai abeira-se de uma cena mais alta (e fá-lo tantas vezes só para se me meter comigo) e eu passo-me, fico com dores de barriga porque tenho medo de alturas. O meu marido todos os dias faz 200 km e tem que me mandar mensagem SEMPRE que chega e sai, mesmo se estivermos amuados, já fiz pausa em discussões para perguntar se ele chegou bem. Se tenho alguém de quem gosto no ar fico com o coração apertado até os saber em terra. Sempre. Sou assim, acho que herdei isto. Isto para dizer, se há suspeitas de os meus filhos terem alguma coisa sim, eu vou ler tudo o que há na net sobre isso. Sim, vou preocupar-me, mesmo que não seja nada. Sim, consome-me. Mas não sei ser de outra maneira e não estou a tentar.Por outro lado, eles têm febre ou fazem uma alergia alimentar e eu não vou a correr para o pediátrico até para espanto dos médicos, como já aconteceu. Vigio e velo, mas não entro em pânico. E caem e eu não grito logo. E sacudo o pó de feridas, dou beijinho e digo para seguirem com a brincadeira depois de quedas aparatosas no parque.Ser relaxada e ser mãe-galinha para mim é dia-a-dia, é tão normal como ser trabalhadora e preguiçosa, que sou. É possível ser-se um pouco de tudo, não somos apenas uma coisa só porque perante determinado cenário somos de certa forma. Não digam a ninguém que está preocupado com alguma coisa, especialmente se for grave, para relaxar. É que toda a gente sabe que tem o efeito contrário, por isso eu vou achar que estão a fazer de propósito só para irritar. Se uma pessoa confidencia que está preocupada com algo, menorizar o problema tentando-lhe dizer que tem que se acalmar não é de amigo. Dizer «isso não é nada, vocês estão a exagerar» não é de amigo. Não digam que mandam relaxar porque querem as pessoas calmas, não se enganem. Se querem ser amigos digam «de que é que precisas?» ou oiçam. Às vezes quando uma pessoa está preocupada a desabafar está só à procura de ser ouvida, não de ser aconselhada.

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