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Três antes dos Trinta

30
Jan21

Ser mãe em pandemia

Ana Sousa Amorim

Ser mãe em pandemia é lixado. Eu ia escrever foda, mas nos últimos anos tenho-me moderado nas asneiras, eles aprenderam a repetir então a verdade é que já não é tão natural. Mas dizia, é foda. Ser mãe para mim nunca é fácil. Escrito isto, repenso e afinal redigo: ser mãe a maioria do tempo não é fácil. Há momentos, assim coisas breves, em que sou mãe sem mas, sem porquês, sem questões, sem tontices, sou mãe, ponto. E corre bem. A coisa vai. Eles crescem. Comem com os talheres. Dizem obrigado e por favor. Mas a maioria do tempo há aquela angústia permanente de saber se estou a fazer bem, se o resultado é bom, a dúvida que nasce com uma reação absurda, em cada luta. Eu era mãe nem há 4 anos quando a pandemia apareceu, por isso falo de um lugar com meia experiência, mas é isto, acho: ser mãe é fácil e às vezes difícil, mas é maioritariamente difícil quando não é fácil. Percebem?
Isto no normal. Na pandemia é sempre aquele emoji da cabeça a fritar. No confinamento é ser-se algo em modo catástrofe. É querer ser tudo bem para eles estarem bem, mas quando está tudo muito mal. É tentar desfilar com graciosidade num passarela de estilhaços de vidro. Não dá.
Sou tantas coisas e confinada sinto-me a ser má em tudo: mulher, mãe, profissional, amiga, pessoa. Uma pessoa acorda, existe e já está a fazer alguma merda mal, nem que seja estar em baixo porque como tenho tanto não posso, ânimo.

30
Jan21

Pijama de dia

Ana Sousa Amorim

Tenho o pijama de dia e o pijama de noite. Tomo banho de manhã e visto umas leggings pretas, camisola e t-shirt: o pijama de dia. Chega a noite e ponho o pijama oficial. No dia seguinte repito. Aí uns 5 dias e vai tudo lavar. A verdade é que podia tomar banho e vestir o pijama de novo. Podia, mas isso era de quem não tem estrutura, eu tenho, bolas. Tenho um pijama de dia.

Falávamos de quando vamos sair, quando tivermos alta e o Gonçalo disse: «vou então tirar o pijama, não posso ir com esta roupa lá baixo». É que eles não têm pijama de dia. No início, ainda tentei, mas depois deixei-os estar sempre de pijama. Nós pensamos que é só roupa, mas impõe ritmo, traz lógica aos dias. Até os miúdos percebem. Sim, filho, quando formos lá baixo tiras o pijama.

28
Jan21

2020

Ana Sousa Amorim

Escrito em 22/11/2020. Dois meses depois li-o e pu-lo aqui porque ainda estou assim. 2020 é o ano que demora a passar, cresceu para 2021 que se prometia diferente e afinal é pior.

2020 é uma bomba em forma de ano. Sinto que ainda estou a fazer o luto do ano que ia ter, da vida que se me prometia. Admiro (e às vezes invejo ou, confesso, irrito-me com) as pessoas práticas que encaixaram em três tempos, resolveram-se e estão prontos para qualquer coisa. São implacáveis: não lhes adianta queixar, não lhes adianta chorar e não admitem quem questione o estado das coisas. Eu, que sempre fui assim eficiente em tragédias, que sempre deixei o leite derramado para ser chorado por outros enquanto saía para ir comprar mais, demoro-me na recuperação desta tragédia como nenhuma outra. Passo dias a pensar no 2020 que ia ter e almadiçoo a facilidade com que consigo criar uma narrativa alternativa em que tudo era simples, em que este ano era o que era. Recuso que me continuem a diminuir por isso, não aceito mais que me digam que dos fracos não reza história. É de fracos como eu que se faz a guerra, todos os dias assaltam-me pensamentos que questionam tudo isto: o efeito nas crianças, a ansiedade nos adultos, a falta que estar com amigos nos fazem, o medo de apanhar o bicho e a quantidade de vidas destruídas por uma economia enterrada. Mas questiono-me no meu canto, não alimento dúvidas de outrem e cumpro com o se me pedem (sem que tantas vezes o entenda). Dizem que as redes sociais nos salvam deste isolamento, eu às vezes acho que nos matam. As redes sociais são muita coisa, mas não são um espelho da realidade, pelo menos eu não acho.

28
Jan21

Da liberdade de se estar triste

Ana Sousa Amorim

Não há direito a estarmos tristes. Não é crítica, até porque frequentemente apanho-me na mesma armadilha, afinal é por amor que o fazemos: vejo que a tristeza é recebida sempre com ataques. É urgente combatê-la. Desejamos ânimo. Muitas vezes recordamos as comparações que nos põem sempre em lugar de privilégio, quase ingratos por oposição. Lembramos as coisas boas, como se os outros as tivessem esquecido. Dizemos piadas, sedentos de sorrisos e gargalhadas. Mas a tristeza não vai. A tristeza costuma ser imune a tamanhas façanhas.

Ninguém diz «eu sei, deixa a tristeza entrar». Não quero me julguem masoquista, má nas horas livres, sem empatia. Por isso não o digo também. E não partilho quando a tristeza me toca. Não quero receber ânimo, já sei que não se fica. Fecho a tristeza na minha casa, instalo-a no sofá da sala. Deixo-a entrar. Convido-a para um café. Pergunto-lhe «então, que te traz cá?» às vezes cansada de saber a resposta, outras com curiosidade genuína de quem se surpreendeu com a campainha. Mas deixo-a entrar porque mesmo quando lhe dou ânimo, quando tenho calma, quando lhe digo piadas, quando a enxuto com o bem que tenho e o bem que quero, ela entra e até faz mais mossa do quando a assumo, quando a desconstruo, quando lhe explico que em casas felizes há sempre dias sem luz.

26
Jan21

É isto o Coronavírus?

Ana Sousa Amorim

Há uns tempos disseram-me, comentado o estado de desleixe em que esta casa se encontra, que o blogue não tinha passado pelo coronavírus. Não deixa de ser curioso eu ter escolhido finalmente atualizá-lo no dia em que obtive a confirmação que estou infetada com o dito.

2020 foi um ano de loucos e escrevi muito, mas desapareci daqui. No final do ano comecei a sentir uma vontade de não estar só no Instagram, local onde as minhas palavras encontraram abrigo nos últimos tempos, e voltar à base. Escrever sem limitação de caracteres e num registo que me diz mais, de diário ou, melhor, de confessionário.

Não tenho bem a certeza se vou cumprir este desejo e se vou mesmo escrever mais por aqui, é uma vontade, mas eu tenho mostrado não cumprir estes desejos pouco concretos e planeados.

Sei que me apetece e por isso para já é um plano.

Em relação ao bicho… estávamos já a cumprir isolamento profilático por contacto com positivo, fomos fazer o teste há uns dias e só hoje obtivemos o resultado: positivos (menos o Duarte que será certamente um falso negativo). Está quase tudo assintomático. Eu tive uma tosse ligeira, que já nem tenho. A Leonor teve uma diarreia violenta, mas hoje está completamente recuperada. O vírus teve mercê de nós e passou sem mossa maior. Mais uma para apontar na lista da sorte.

O confinamento é dor conhecida, angustia como já sabíamos, mas ao mesmo tempo revela-se menos duro. A mente já tem a estrutura encaixada e isso assusta tanto quanto apazigua. No geral, sinto-me tranquila, com acessos esporádicos de nervos. Estou a dosear o Twitter e cortei o Instagram e até ver isso está a ajudar-me a ter tempo para as outras coisas.

Perdi um pouco a vontade de ver séries e também filmes, o que não serve o propósito da minha lista de a ver para os Óscares. Pelo contrário, tenho lido muito. E tenho brincado com os miúdos e cozinhado para um regimento.

O Gonçalo disse «é isto o coronavírus»? Para nós, é. Felizmente.

Continuemos.

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