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Três antes dos Trinta

27
Set18

(Des)sintonia

Ana Sousa Amorim

Vejo muita gente à procura do tal. Tanto me elogiam a sorte. Perguntam-me como é que aguentamos. Leio sobre a sintonia do casal, sobre a partilha. Farto-me de ver floreados que todos querem. Esqueçam a sintonia. Nós não temos sintonia. Nós discutimos. Nós pomos pausa em discussões para dar banhos, para dar jantar, para viver. Nós entramos em conflito sobre a maneira como educar, como reagir. Nós cobramos tarefas, tempo, saídas, trabalho. Nós somos rancorosos e teimosos. Nós funcionamos. Nós acordamos e esbarramos no corredor a trocar de turnos. Nós somos uma máquina oleada de logística. Nós planeamos. Nós fazemos listas. E nós perdoamos. O cansaço, as rotinas, o trabalho, a vida. Não sei nada sobre relações duradouras, sobre amores para a vida, sobre companheirismo. Não sei nada sobre os outros, sobre a vida. Só sei sobre nós. Sei que todos os dias, ele acorda antes de mim, trata de tudo e depois sai para trabalhar. E sei que volta todos os dias. E a mim custa-me vê-lo sair não (só) porque fico sozinha, tantas vezes sem ajuda, mas porque fico sem ele. No fim-de-semana vínhamos em viagem e eu disse-lhe «adoro uma música que está sempre a dar, mas não consigo dizer qual é, não sei nem uma única palavra.» Ele respondeu «vê se é esta» e pôs no telemóvel. Eu disse «olha que não… não me parece». Era. Chegou o refrão e ri-me «é esta, é». Ele sabia e fez um sorriso delicioso de quem tem sempre razão— gosto destes sorrisos porque geralmente são meus. Vinte minutos depois estávamos em casa e eu a bufar porque ele se lembrou de ir andar de bicicleta com o miúdo em plena hora de almoço. PLENA HORA DE ALMOÇO. Eu fiquei sozinha com os gémeos a arrumar malas e a fazer o almoço. Mas depois pensei: esta pessoa conhece-me tão bem que descobre a que me refiro por mero pensamento e acalmei-me. Acham mesmo? Sabem de que é que me serviu ele ter descoberto a tal música? De nada, passei-me na mesma e barafustei like a motherfucker. Isto é muito giro ter a nossa alma gémea, mas quando a coisa aperta uma pessoa tem simplesmente vontade de a esganar como às almas menos gémeas.As normas do amor mandam nunca nos deitemos chateados. Eu também já fui jovem e inocente e dizia o mesmo, mas agora digo-vos se se chatearem, deitem-se. De manhã as parvoíces deixam de fazer sentido, o dia traz lucidez e o descanso tira importância a pormenores que são mesmo detalhes. Eu deito-me chateada, tem dias que ainda acordo amuada, eu discuto, eu grito, eu digo que estou cansada. Mas deito-me todos os dias apaixonada, todos os dias me levanto enamorada. Que se lixe a sintonia, eu quero a confusão, eu quero o cansaço, eu quero a verdade. Eu gosto disto assim. E dele também. A todos os que perguntam como é que aguentamos: ele sabia que eu tinha mau feitio bem antes dos três, agora é só um bocadinho mais. Isto das relações é como as mães: não há perfeitas, só há as reais. E também como a mãe, a minha é a melhor do mundo.

17
Set18

Tem calma

Ana Sousa Amorim

Basicamente uma pessoa anda aí e pensa que há mães como há mulheres, todas diferentes, mas vai-se a ver e afinal só há dois tipos: mãe-galinha e a mãe-relaxada. E ou se é uma ou se é outra. A mãe-galinha é demais: é tudo em bom, mas demais. Ama tanto que sufoca, preocupa-se tanto que exagera, cuida tanto que não dá espaço. A mãe relaxada deixa tudo andar, não se preocupa, vive a vida. E, como em tudo nesta merda da maternidade, ou se é uma ou outra.Volta e meia, alguém me diz a propósito de alguma coisa com os meus filhos que tenho de ser mais relaxada, mais descontraída que não ando a aproveitar. Quando alguém me diz que eu «tenho de ser» de determinada maneira fico logo com comichão, apetece-me mandar essa pessoa à merda, mas aguento-me porque sei viver em sociedade. Eu devo ser relaxada? Mas quem é que disse que eu não sou relaxada? E… quem é que disse que eu quero ser relaxada? E o que é ser relaxada? E quando é que devo ser relaxada? E como… vocês percebem. Depois a sentença: «Estás em stress com tudo, tens de deixar a vida levar, o teu stress passa para eles, sabes, por isso é que eles não dormem/comem/cagam/falam". Ora, fica o disclaimer: eu não sou relaxada, não sei ser e não quero ser. Nunca fui. Não sei ser assim com os miúdos porque não sei ser assim com ninguém. O meu pai abeira-se de uma cena mais alta (e fá-lo tantas vezes só para se me meter comigo) e eu passo-me, fico com dores de barriga porque tenho medo de alturas. O meu marido todos os dias faz 200 km e tem que me mandar mensagem SEMPRE que chega e sai, mesmo se estivermos amuados, já fiz pausa em discussões para perguntar se ele chegou bem. Se tenho alguém de quem gosto no ar fico com o coração apertado até os saber em terra. Sempre. Sou assim, acho que herdei isto. Isto para dizer, se há suspeitas de os meus filhos terem alguma coisa sim, eu vou ler tudo o que há na net sobre isso. Sim, vou preocupar-me, mesmo que não seja nada. Sim, consome-me. Mas não sei ser de outra maneira e não estou a tentar.Por outro lado, eles têm febre ou fazem uma alergia alimentar e eu não vou a correr para o pediátrico até para espanto dos médicos, como já aconteceu. Vigio e velo, mas não entro em pânico. E caem e eu não grito logo. E sacudo o pó de feridas, dou beijinho e digo para seguirem com a brincadeira depois de quedas aparatosas no parque.Ser relaxada e ser mãe-galinha para mim é dia-a-dia, é tão normal como ser trabalhadora e preguiçosa, que sou. É possível ser-se um pouco de tudo, não somos apenas uma coisa só porque perante determinado cenário somos de certa forma. Não digam a ninguém que está preocupado com alguma coisa, especialmente se for grave, para relaxar. É que toda a gente sabe que tem o efeito contrário, por isso eu vou achar que estão a fazer de propósito só para irritar. Se uma pessoa confidencia que está preocupada com algo, menorizar o problema tentando-lhe dizer que tem que se acalmar não é de amigo. Dizer «isso não é nada, vocês estão a exagerar» não é de amigo. Não digam que mandam relaxar porque querem as pessoas calmas, não se enganem. Se querem ser amigos digam «de que é que precisas?» ou oiçam. Às vezes quando uma pessoa está preocupada a desabafar está só à procura de ser ouvida, não de ser aconselhada.

14
Set18

Aproveitar é engodo

Ana Sousa Amorim

O que me irrita nesta cena do aproveita que depois eles crescem, a filosofia moderna da parentalidade e dos conselhos das recém-mães é que explora aquela fragilidade da melancolia de recordar um filho bebé.

Ter um filho é maravilhoso. Mas é uma altura de merda. Não conheço mais outra coisa na vida que seja tão de extremos, por isso é que é tão difícil. Porque é óptimo, nasce-nos o filho, sangue do nosso sangue, a nossa cria, um bebé, o ser mais fofo e lindo do mundo e nós, as mães, quais lobas, só queremos lambê-lo, mimá-lo, guardá-lo. Mas nasce-nos também a mãe, a maluca, a cansada, a quero estar aqui, mas quero fugir, a que tem saudades de comer cereais ao jantar a beber uma mini e ver uma série. Então nasce a cisão, o bom e o mau, duas metades da mesma vida, duas metades do mesmo espelho, dentro de nós, na nossa sala, na nossa vida. E por isso, às vezes estamos lá a olhar para aquele ser lindo, maravilhoso, nosso, porra, ainda é parte de nós, ainda há dias lhe cortavam o cordão umbilical que era da minha carne, mas não estamos, porque estamos a chorar o banho que não tomámos, a série que não vimos, a noite de copos a que não fomos, a reunião de trabalho a que faltámos, o cinema a que não fomos, o restaurante novo que não conhecemos, a barriga que nunca mais teremos, o estar sozinha sem se sentir só. Algures depois desta merda toda passar, um dia dias depois, ou meses ou até anos, vemos uma foto dessa altura que foi tirada no segundo bom, aquela foto dele a dormir, lindo, pacífico, tirada momentos antes de se chorar de novo encostada à parede da cozinha porque deixámos cair o telemóvel e ele acordou com o barulho, momentos antes que já não existem, que a memória apagou porque esquecemos tudo, nesse dia olhamos para a foto de paz daquele ser que amamos, que está maior, que já não é bebé, e queremos voltar e temos saudades. E as saudades vestem o casaco da culpa e dão à luz a ideia de que não aproveitámos, afinal, temos tantas saudades. Então mandamos aproveitar quem pode, esquecidas que não se aproveita só se vive e que as saudades são só saudades e temo-las de tudo. Eu também já fui assim. Perdi-me nas fotos do meu filho bebé e pensei que não o tinha cheirado, não o tinha aproveitado, que passei o tempo todo preocupada com ele, com o sono, com a vida. E prometi aproveitar, deitei-me grávida todas as noites e prometi aproveitar os meus filhos que nasceriam daí a pouco, comprometi-me a ser melhor, a aproveitar tudo até o que se esquece. E  depois eles nasceram e nasci eu de novo, a mãe, a maluca, a cansada. Que só os quer a dormir, que tem saudades de estar sozinha, sem estar só. E não aproveitei.

Um dia, esta, a mãe, a cansada, leu alguém mandá-la aproveitar, que eles crescem, que eles saem do colo, que eles depois não nos querem. E cansou-se desta vida de António Variações, só estou bem aonde não estou, só quero aquilo que não tenho, só sei que é bom depois de passar, só sei que devo aproveitar quando o tempo já partiu. Não. Eu aproveitei. Eu mimei, eu lambi as crias, eu adormeci-as ao colo, eu admirei-as. Mas eu também chorei, quis fugir, quis gritar. Tenho saudades deles mais pequenos, tenho saudades de eles se aninharem, tenho saudades de serem só meus, de os descobrir nos olhos acabados de abrir e de lhes dizer a mamã está aqui, a mamã está aqui, não vou a lado nenhum. Mas aproveitei, e não vou deixar que saudade nenhuma me tolde a vista. Gozei e não vou deixar que ninguém se aproveite da fraqueza da saudade para me dizer que não aproveito tudo. Eles crescem, felizmente. Aproveita. Tem um filho, ama-o, lembra-te que és capaz de tudo e o tempo faz o resto.

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